ESSE TAL GOLPE DO BILHETE PREMIADO – QUE DESGRAÇA!
Paulo Videla Ruschel, Delegado de Polícia Civil - RS, aposentado
E-mail: pvruschel@gmail.com
É incrível
como tem sido cada vez mais frequente ouvir-se relatos de pessoas, que foram
enganadas por golpistas, estelionatários e malandros, os quais, mediante grande
poder de persuasão, conseguiram induzir as vítimas a entregar dinheiro, objetos
de valor ou bens, muitas vezes fruto da economia de toda uma vida.
O golpe
mais conhecido e antigo de todos é o chamado Golpe do Bilhete Premiado ou simplesmente Conto do Bilhete. Ele assim
acontece: a vítima é abordada, de forma “casual”, por pessoa de aparência
simplória, de pouca instrução, que pede ajuda para retirar o dinheiro do prêmio
de um bilhete contemplado, que ela mostra à inocente vítima (muitas vezes pode
ser um bilhete recém-feito, com os números sorteados da última extração). O
golpista diz não conhecer a cidade, tampouco como resgatar os “milhões de
reais” do prêmio. Em seguida, se aproxima outra pessoa, geralmente bem trajada,
que se dispõe a ajudar o dono do bilhete. Nesse momento, esse segundo comparsa se
oferece para conferir se o bilhete realmente está sorteado e liga para um falso
telefone de uma casa lotérica ou da CEF, inclusive dando o telefone para a
vítima falar. O bandido que atende, se fazendo passar por funcionário,
obviamente confirma os números. A vítima fica convencida de que o bilhete está
premiado. O segundo comparsa (aquele bem trajado) se oferece a ir buscar o
prêmio com a vítima, mas o primeiro golpista (o de pouca instrução) pede uma
garantia em dinheiro ou joias para entregar o bilhete premiado. O comparsa então
dá dinheiro ao dono do bilhete, mas pede que a vítima o ajude a complementar a
garantia. Pronto. A vítima, a essa altura, está totalmente enredada.
Acreditando ser uma boa oportunidade de ganhar dinheiro, aceita a proposta em
troca do bilhete. Os golpistas acompanham a vítima ao banco, que saca valor
expressivo e o repassa aos vigaristas. Então, entregam o bilhete à vítima e, com
qualquer desculpa, saem do local, deixando-a sozinha. Mais tarde, a vítima percebe
que foi enganada, ludibriada – tudo não passava de jogo de cena, teatro. Foram-se
suas economias.
Isso é
apenas um relato que, infelizmente, retrata o que tem cotidianamente
acontecido, principalmente com pessoas idosas e desavisadas. A verdade é que os
golpistas bem sabem escolher suas “presas”, para abusar da boa-fé e da credulidade
inerentes a gente de boa índole. Eles se aproveitam da fragilidade dos mais
velhos, que carecem de maior atenção, inclusive afetiva. Esses bandidos
conhecem a psique, a alma, o espírito das pessoas. Suponho que eles acabem
desenvolvendo essa habilidade com a prática. Eles parecem ter a capacidade de,
literalmente, entrar em suas mentes.
Sabe-se que
muitos casos sequer são registrados na Polícia Civil. A vergonha e o sentimento
de inferioridade as impedem de fazê-lo. Possivelmente, se desesperam; ficam
inconformadas e a se perguntar como caíram nesse golpe. De tão constrangidas, ao serem questionadas
pelos parentes, amigos ou pela Polícia, acabam fornecendo uma versão
fantasiosa, geralmente de que foram ameaçadas, de forma a justificar o fato de
terem sido na verdade enganadas. Isso somente complica as coisas e prejudica as
investigações a cargo da Polícia Civil.
Há uma
diversidade de outros golpes “na praça”, tais como o Conto do Pacote de Dinheiro,
do Cheque no Pé, do Carro Quebrado, do Falso Sequestro, entre outros. Todos
eles têm em comum o fato de que os criminosos usam a habilidade com as
palavras, a ponto de induzir a vítima a erro.
Lembre-se.
Não há forma de ganhar dinheiro fácil. Nessas horas, convém seguir o ditado
popular que diz: “Quando a esmola é demais, o santo desconfia.”
Portanto, nunca confie em pessoas
estranhas. Memorize as características dos indivíduos e de eventuais veículos
(placa). Imediatamente ligue para a Polícia. Procure a Polícia Civil e registre
a ocorrência, a fim de que os fatos sejam devidamente apurados, possibilitando
a identificação de seus autores.
Vale a
reflexão sobre a seguinte frase de François, Duque de La Rochefoucauld,
escritor francês (1613/1680).
“A maneira mais segura de se ser enganado é julgar-se
mais esperto do que os outros.”
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